







Namblá Xokleng é uma intervenção realizada por Mônica Nador e JAMAC a partir das grafias corporais e dos repertórios visuais do povo Laklãnõ-Xokleng. O trabalho foi criado em resposta ao assassinato de Marcondes Namblá, educador, pesquisador e liderança indígena, ocorrido em Santa Catarina em 2018. A obra faz do espaço expositivo um lugar de memória e reconhecimento, afirmando a presença e a continuidade dos povos indígenas diante de séculos de violência e apagamento.
A pintura mural em estêncil ocupou a claraboia do museu com padrões inspirados nas pinturas corporais Laklãnõ-Xokleng, em homenagem a Marcondes Namblá e em reconhecimento à permanência dos saberes, das histórias e das formas de existência dos povos originários.
O trabalho foi apresentado originalmente na exposição Claraboia 4: Mônica Nador e JAMAC – Namblá Xokleng, realizada no Museu de Arte de Santa Catarina (MASC), em Florianópolis, entre 8 de fevereiro a 4 de abril de 2018.
Ao longo das últimas três décadas, Mônica Nador vem aproximando explorações relativas à espacialização da pintura, iniciadas no início do século XX, ao imaginário daqueles que participam de suas “paredes pinturas”. Compostas por desenhos transformados em padrões, reproduzidos com uma rica paleta de cores, essas pinturas colaborativas promovem o sentido de comunidade, reforçando sua figura de agente social, elemento central em seu trabalho, desde quando fundou o JAMAC – Jardim Miriam Arte Clube.
Situado em zona periférica da cidade de São Paulo, onde a artista vive e trabalha, o JAMAC tem atuado em museus, centros de arte e comunidades de vários países, com pinturas em escala arquitetônica, o que também é visível em fachadas do bairro paulistano. Para a quarta edição do projeto Claraboia, Mônica Nador e JAMAC desenvolveram uma intervenção que reage diretamente ao assassinato do indígena Marcondes Namblá, egresso da UFSC e professor do idioma Xokleng. O incidente ocorreu na cidade de Penha/SC, no primeiro dia de 2018. A profusão de cores que marca suas pinturas foi substituída por um fundo escorrido, conseguido com tinta preta diluída. Sobre ele, signos da cultura Laklãnõ Xokleng foram embutidos, criando um ritmo que se divide em planos com formas circulares e retangulares, que os indígenas retiram das marcas corporais das onças e geram, na instalação, profundidade e distância, presença e grandeza.
Contra a naturalização da barbárie, o projeto proposto por Mônica Nador e JAMAC traz à tona um debate urgente sobre a insustentável condição na qual vivemos, em que tiranos conquistam espaço para dilacerar o território da liberdade, conquistado parcialmente e a duras penas. À arte cabe a insistência, prática necessária aos que acreditam na força da vida sem racismo, xenofobia e especismo, este último, ainda improvável, em função de chacinas ininterruptas. Com a intervenção intitulada Namblá Xokleng, o projeto Claraboia segue promovendo experimentações interdisciplinares, ao mesmo tempo que busca entradas de luz sobre questões que alarmam nossos tempos.
Enquanto a burrice nos mantiver jorrando sangue, nossos “podres poderes” seguirão gerando a entrada de figuras na história da arte brasileira, introduzidas como a imagem da incansável luta pelo direito à vida, a exemplo de Cara de Cavalo, Herzog, Lindonéia, a Gioconda do Subúrbio, Mineirinho, Amarildo, alguns dos que representam um número sempre maior de anônimos destroçados. Eventos como o que tirou a vida de Namblá Xokleng, que deixou cinco filhos e foi assassinado enquanto vendia picolés na praia para complementar sua renda de professor, nos mantêm meros boçais.
Josué Mattos
Curador do MASC

JAMAC: Bruno O., Izabel Gomes, Janaú, Lahayda Mamani Poma, Mônica Nador, Renata Muniz, Thais Scabio e Vita Pereira
Técnica: pintura mural em estêncil sobre parede
Florianópolis | 2018